8 de março, Dia Internacional da Mulher

Neste 8 de março, dia de fortalecer a importância da mulher na sociedade, o Gastro Medical Center relembra a história de Maria Augusta Generoso Estrela, a primeira médica do Brasil.

A inquieta jovem Maria Augusta Generoso Estrela, nascida em 10 e abril de 1860, tinha como projeto de vida estudar medicina. A vontade foi acentuada durante o período de internato no Colégio Brasileiro, onde lia revistas e jornais e observava a movimentação de jovens norte-americanas que frequentavam o curso de medicina em Nova Iorque.

Convencida de ser médica e ciente da proibição de mulheres frequentarem o nível superior no Brasil, venceu a primeira barreira: a de fazer a família acreditar de que poderia estudar medicina nos Estados Unidos.

Aos 16 anos, a jovem iniciou suja jornada. A primeira batalha foi ser aceita na conceituada New York Medical College and Hospital for Women, em Nova Iorque, que só aceitava alunas com mais de 18 anos. Inconformada, Maria Augusta conseguiu ser ouvida por uma banca examinadora, que acatou seus argumentos e a autorizou a realizar o teste para iniciar o curso. Aprovada sem restrições, Maria Augusta começou a frequentar a universidade em 1876.

Enquanto estudava nos Estados Unidos, a Companhia Bristol, representada no Brasil pelo pai de Maria Augusta faliu, o que impedia a família de mantê-la estudando. Como a jovem também conquistou destaque na imprensa brasileira e era conhecida dos nobres do país, o imperador D. Pedro II ordenou por decreto, em 1877, a constituição de uma bolsa para pagar a faculdade e cobrir gastos gerais.

Maria Augusta concluiu o curso em 1879, mas não tinha a idade exigida pelos estatutos da faculdade para receber o diploma. Assim, aguardou dois anos para completar a maioridade e receber o grau de Doutora em Medicina.

Durante a espera do diploma, Maria Augusta frequentou cursos e estagiou em vários serviços médicos de Nova Iorque. A ela se juntou a colega de faculdade, Josefa Agueda Felisbella Mercedes de Oliveira, que anos depois seria médica destacada no Estado de Pernambuco. As duas fundaram em 1881 o jornal A Mulher. Em um dos números desse periódico, “consagrado aos interesses e direitos da mulher brasileira”, escreveram o artigo “A mulher médica”, quando defendem o direito feminino de exercer a medicina com o objetivo específico de atender as mulheres.

Destacamos parte desse artigo:

“Depois que a ciência resolveu o problema de que a mulher é apta para os mesmos ramos científicos que o homem, ela entendeu dever aprender a ciência medica para consolar e curar sua semelhante. A mulher com outra não tem o acanhamento para revelar suas moléstias, suas misérias, suas faltas fisiológicas, que tem diante do homem… conhecedores, alguns médicos desta verdade moral e científica, exploram ainda com a ignorância que predomina, e dizem que a mulher é incapaz de ser médica! Eles que venham à tela da discussão científica e curvarão a cabeça diante da análise anatômica. Cure o homem ao homem, cure a mulher a mulher: é o que pede a moral e o que impõe as leis da igualdade: é o que querem e apreciam os homens verdadeiramente sinceros; moraes e sábios e amigos da educação da mulher”.

Maria Augusta recebeu o diploma de Doutora em Medicina em 1881. Foi oradora da turma e agraciada com uma medalha de ouro por sua dedicação às atividades estudantis. Retornou ao Brasil no ano seguinte, quando realizou a exames para validar seu diploma americano e conquistar o direito de exercer a profissão em seu país, mais especificamente, no Rio de Janeiro.

Continuou enfrentando resistências e preconceitos e viu, por sua causa, o incremento de debates sobre a capacidade feminina para a medicina. Casou-se com um farmacêutico e montou consultório na farmácia do marido, de onde várias receitas eram formuladas por ela. A clientela era imensa; dedicava-se às mulheres e às crianças, atendia gratuitamente aos que não tinham possibilidade de pagar.

Teve cinco filhos: Samuel, Matilde, Bárbara, Luciano e Antônio. Maria Augusta ficou viúva em 1908, quando viu-se obrigada a reduzir o atendimento médico para se dedicar mais aos filhos. Nunca abandonou completamente os estudos e o contato com clientes. Era frequentemente chamada para discutir entre colegas um caso de difícil diagnóstico, o que conseguia com brilhantismo e facilidade. Lia assiduamente, sendo esse o seu passatempo predileto.

Maria Augusta Generoso Estrela faleceu subitamente, em 18 de abril de 1946, aos 86 anos, enquanto conversava com a família. Deixou um lugar na história pela luta na defesa de ideais femininos.

Importante destacar que somente em 1879 o Governo Brasileiro abriu as instituições de ensino superior às mulheres, em decorrência da Reforma Leôncio de Carvalho, pelo Decreto no 7.247, de 19 de abril. Essa situação, no entanto, não mudou o preconceito em relação à formação das mulheres, que sofreram por mais longas décadas pressões e a desaprovação social.

Sugerimos a leitura completa da biografia de Maria Augusta Generoso Estrela, de autoria de Helio Begliomini, de onde buscamos essa informação importante para a história da Medicina brasileira.

Confira também imagens do jornal A Mulher e a foto original de Maria Augusta Generoso Estrela, no blog de Neto Geraldes.